Posts tagged: brasil

Bolsonaro, vôlei e o povo brasileiro

By , 07/04/2011 9:07 am

Na semana passada o CQC mostrou uma entrevista na qual o Deputado Bolsonaro deu declarações que muitos passaram a semana todo condenando como homofóbicas e racistas. Não vou entrar no mérito dessa discussão.

O ponto que eu quero ressaltar é o fato de ele ser um deputado eleito que, de fato, representa uma boa parcela da população. Disso eu não tenho a menor dúvida. O assunto que deveria ter chocado todo mundo naquela semana foi outro: a partida de vôlei entre Futuro e Cruzeiro pela Superliga Masculina.

Michael, um dos jogadores da equipe de Araçatuba, que é assumidamente gay, foi alvo de comportamento claramente preconceituoso da torcida adversária. Em entrevista para o Globo Esporte ele deu a seguinte declaração (sublinhado por minha conta):

O que aconteceu exatamente em Contagem? Já tinha passado por uma situação semelhante antes?
- No jogo em Contagem teve uma manifestação da torcida gritando “bicha”, “gay”, todas essas coisas. Já tinha acontecido casos isolados de algumas pessoas gritarem pelo clima do jogo. Mas nem escuto, deixo passar porque é ignorância. Mas foi um coro, senhoras, crianças e mulheres gritando, já num clima preconceituoso mesmo. (…)

Não são as palavras em si que são preconceituosas, mas o contexto em que elas são ditas. Esse é o povo brasileiro. Bolsanaro, portanto, representa muito bem essa gente.  Antes de ficarmos chocados com ele deveríamos ver o que aprendemos e ensinamos em casa, pois são através de piadinhas e comentários “sem maldade” que teriam bem mais graça se não fossem o retrato da nossa ignorância transmitindo a discriminação desde a infância, pois o que as crianças aprendem brincando é nada mais nada menos do que a estupidez se propagando (Pensador, Gabriel ).

O Deputado realmente não está sozinho e provavelmente muitos dos que o criticam (principalmente no Twitter) incidem na mesma falha de moral. Chegou pra mim o link do Tragédia da Empregada mais uma demonstração do que pensa o nosso povo quando acham que não tem ninguém olhando.

Haiti N°2

By , 20/01/2010 11:19 am

Todas as atenções voltadas para o Haiti. O Brasil aproveita a coincidência de já estar com militares alojados a bastante tempo no país para tentar emergir dessa catástrofe como um grande herói e se projetar mundialmente. Quem sabe talvez  abandonando de uma vez por todas o estigma de ”um país em desenvolvimento”.

Algumas coisas me chamaram atenção após uma semana da catástrofe.

A primeira foi a incapacidade do Brasil de chamar, a responsabilidade das operações, para si. Tão logo a confusão se instalou na ilha,  uma população em pânico, dezenas de equipes de resgates de todo o mundo e  a violência correndo solta pelas ruas, as autoridades haitianas (até porque a essas alturas eu não sei dizer se existe governo) correram para as asas  dos Estados Unidos e pediram para que eles  controlassem o espaço aéreo de Porto Príncipe. A história terminou com uma briga de egos, Celso Amorim ligando para Hillary Clinton exigindo respeito.

Repercutiu também  os comentários dos  italianos sobre a aparente falta de experiência dos americanos em lidar com desastres. Os italianos chamam os americanos de incompetentes ao mesmo tempo que não mobilizaram ninguém para se envolver na catástrofe. Vale uma lida no blog do Leandro Demori e nos comentarios deixados lá.

A impressão que eu tenho é que junto com a vontade de ajudar e salvar vidas, corre concomitantemente uma batalha midiática onde algumas pessoas, na forma de alguns governos, estão bastante preocupados em usar o Haiti como um palanque para se promover.

E  para terminar, a mídia, no caso os jornalistas e fotógrafos. Essa discussão se repete sempre  que um desastre acontece, o que fazer: ajudar ou fotografar.

Eu sei que o trabalho deles é documentar e o dos médicos é salvar vidas. A questão é como são empregados os recursos, tanto o material ou seja, tudo aquilo que eles consomem e o espaço que eles ocupam ,quanto o recurso humano em si, na forma dos próprios jornalistas que podiam estar empregando sua energia salvando vidas e não agindo como paparazzis atrás de uma foto premiada.

Entendo que a divulgação de fotos e as matérias que as acompanham são capazes, de muitas vezes, comoverem  o mundo e gerar simpatia, em forma de doações e ainda mais recursos provenientes da audiência das midias. Mesmo assim não deixa de ser revoltante ver uma pessoa no chão, enquanto  dez pessoas saudáveis se empuleram para bater uma foto.

Para fechar, fica a imagem do cruzeiro americano Independence of the Seas da Royal Caribbean que apesar de tudo não achou necessário cancelar seu roteiro de viagem e atracou em um Haiti destruiído, cheio de turistas pronto para um churrasco e uma margarita, dias após o terremoto.

Lugares marcados

By , 12/10/2009 2:09 pm

Imagine nas Olimpíadas: como explicar a um sueco que ele pode vir comigo furar a fila porque “conheço uns caras ai…”? (via dado4314).

Só de pensar em entrar em uma fila já sinto uma sensação de asco. São tantas as técnicas que nós, brasileiros, encontramos para furá-las, que qualquer um que tente respeitá-las, inevitavelmente se sente um otário. Uma inversão total de valores. Há também outras variações do delito, como quando uma pessoa chega primeiro e “reserva” lugar para outras dez, que podem acabar nem vindo e seus lugares permanecerem marcados e sem uso.

Como não se pode esperar que as pessoas se eduquem em um espaço menor do que algumas gerações, o que nos resta é contar com o bom senso dos organizadores dos eventos, seja mandando os seguranças recolher da fila os furões ou, no caso dos cinemas, adotando uma medida simples: lugares marcados.

Eu gostava de ir às sessões de estréia dos filmes. Fui ao Star Wars Episódio um, Matrix e Senhor dos Anéis. Frustrei-me em todas. Eu sempre comprava ingresso com dias de antecedência para garantir meu lugar, mas ao chegar ao cinema meia hora antes da sessão, já podia vislumbrar filas que chegavam até a praça de alimentação.

Eu era um dos primeiros a comprar ingresso, mas estava fadado a sentar em um lugar ruim, porque algumas pessoas desocupadas já haviam acampado ali na entrada onde se iniciaria a fila (mesmo eu tendo comprado o ingresso antes delas). Depois vários conhecidos dessas pessoas iriam se infiltrar ao lado de seus amigos na minha frente. Para fechar com chave-de-ouro, os primeiros a entrarem na sala, costumavam correr e ocupar quantos bancos conseguissem, guardando lugar para seus amigos, que provavelmente ainda nem haviam comprado o ingresso.

Variações dessa barbárie acontecem com freqüência em todo tipo de espetáculo. Ontem finalmente eu tive uma experiência de primeiro mundo, que ressuscitou minha vontade de assistir filmes em público. Fui assistir à estréia de Bastardos Inglórios (violentíssimo, porém excelente filme), que iniciava às 23h10min no GNG Iguatemi. Comprei meu ingresso e da minha namorada pela internet às 19h, escolhi um daqueles lugares perfeitos, bem centralizados, daqueles que você só pega em uma sala vazia. Cheguei ao cinema às 23h, não tinha muita fila, mas não teria problema, pois eles disponibilizam um caixa apenas para retirada de tickets comprados pela internet. Minha namorada quis comprar uma água, então entramos no cinema 23h11min, inicio dos trailers, cinema cheio e nossos dois lugares lá no meio, vagos, apenas nos esperando.

Eu não precisava nem ter visto o filme, já tinha ganhado minha noite. É outro nível.

A última vez que eu tive uma experiência desse tipo, fora em um estádio de futebol. Sim, em um estádio de futebol, com lotação para sessenta mil pessoas. Cheguei 10 minutos antes do jogo e meu lugar estava me esperando. Obviamente não foi no Brasil, foi em Madrid, na Espanha, cidade que perdeu para o Rio de Janeiro na decisão final para sede olímpica de 2016. Estamos muitos anos atrás dos europeus no quesito organização e centenas no quesito educação. Temos sete anos para nos recuperar.

Inclusão alfabética

By , 28/09/2009 11:02 pm

Acho a inclusão digital essencial para gerar novas oportunidades, tanto culturais, quanto de emprego. Parece-me, no entanto, que ela tem sido feita às pressas, muito antes de outra inclusão ainda mais importante: a inclusão cultural, que me permito chamar de “inclusão alfabética”.

Basta alguns minutos navegando aleatoriamente por algumas redes sociais como Orkut, para encontrar todo tipo de frases e palavras que, com certeza, não pertencem à língua portuguesa. Alguns dos erros são tão grotescos que indicam duas coisas: as pessoas não dão a mínima para qualidade de seus textos e ninguém usa o auto-corretor do Word.

Pode parecer retrógrado da minha parte, mas acho que traria muito mais benefícios para a sociedade incentivar as pessoas a lerem mais livros do que acessar mais a internet.

A ignorância alheia, somada à falta de noção e à alta exposição das redes sociais, permitiu a criação de sites de sucesso como “Pérolas do Orkut”, “Tolices do Orkut” e tantos outros que fazem chacota em cima da ignorância alheia.

Se você não acredita em mim, dê uma olhada no site “Palavra do Dia”, uma coletânea de algumas das “novas palavras” que podem ser encontradas na Internet.

Suplicy Senil

By , 28/08/2009 8:19 am

TV Senado é o único canal relevante da televisão brasileira.

Resumo do episódio: Depois de demonstrar pouca lucidez em seu discurso e ser motivo de risos para todo o Senado, o pai do Supla, que já foi um grande senador, acabou por ser obliterado pelo peixe-boi.

Dignidade

By , 28/05/2009 5:55 pm

Sambarilove

By , 11/05/2009 10:51 pm

Pois estávamos eu, Bruno, Dodô e Juliana no fabuloso almoço na cantina, repercutindo alguma das mais importantes noticias do cenário macroeconômico mundial, tal como o fato do Mussunzinho ter engravidado a namorada.

Depois de alguns minutos o inevitável acontece, entramos na seção nostalgia. Serginho Groisman, Kiss sem fantasia, na cama com Gabi. Lá pelas tantas o Bruno solta um: Sambarilove.

Para quem viveu o inicio da década de noventa impossível não lembrar o personagem Armando Volta, da escolinha do professor Raimundo (Chico Anísio) . Ele era um dos poucos que sempre conseguia tirar dez, pois quando questionado sobre algo que não tinha resposta, aparecia com um presente para o professor, que prontamente deixava escapar uma pista que entregava a resposta.
Recordar é viver:

É fácil se divertir e até se identificar com esse personagem. Ele é a fotografia do povo Brasileiro. Ele e o professor Raimundo, diga-se. Enquanto o telespectador vai rindo, se perpetua aquilo que em nossa cultura chamamos carinhosamente (e alguns até com orgulho) do “jeitinho brasileiro”.

Ele não sabe a resposta, mas dá um agradinho, o professor alivia e todo mundo sai ganhando. Será?

O mal do Brasil começa nas pequenas atitudes do dia a dia. Na fila que furamos para entrar antes na festa. A multa de trânsito que recorremos pra não pagar.  Aquela vista grossa que fazemos quando nossos amigos pisam na bola. Aquela ligação para um conhecido da repartição pra ele “agilizar a papelada”.

Ao mesmo tempo que cometemos nossos pequenos pecados, vamos reclamando dos políticos, que compram castelos, desviam milhões e fazem a farra das passagens. Tentamos crer que políticos são uma raça a parte, que brotam do nada ou vieram de outro planeta. Esquecemos que os políticos são pessoas, que saíram do povo. Os políticos não são corruptos, os Brasileiros que são. Políticos Suíços não são corruptos porque os suíços não são.

O Brasil tem uma verdadeira democracia, porque aqui os políticos realmente representam seu povo, que não rouba mais porque não tem acesso, mas todo dia vai dando um “jeitinho” e levado a vida como pode.

No fim só nos resta dizer: Sambarilove.

Panorama Theme by Themocracy