Saiu a terceira parte do excepcional Everything is a Remix. Ele explica de maneira extremamente didática e incrivelmente cativante o que tentei argumentar há muito tempo atrás em um dos meus primeiros posts aqui no blog. Recomendo a todos.
Eu queria escrever um texto sobre entender o passado e enxergar o futuro. Tenho toda a teoria na minha cabeça, mas estou com preguiça de escrever. Vamos então fazer um exercício de pós-modernismo: vou colocar a chamada para minha ideia, uma breve explicação e várias imagens. Tenho certeza que será o suficiente para você entender meu raciocínio.
Arqueologia é um trabalho de adivinhação. Eu tenho certeza que metade dos artefatos que usamos para definir o dia a dia de culturas antigas não servia para nada do que imaginamos. Se um cataclisma interrompesse o registro gradual de conhecimento e num futuro distante arqueólogos tentassem recuperar fragmentos de nossa civilização a partir de objetos encontrados em escavações, eles nunca iriam concluir suas verdadeiras funções. Os museus desse futuro terminariam mais ou menos assim:
Existem práticas impossíveis de se deduzir por aqueles que não as vivenciaram.
O mesmo problema se aplica as tentativas de olhar para o futuro. Tudo que fazemos é recombinar os elementos que conhecemos. Tudo sempre acaba em carros voadores e geladeiras inteligentes.
Clique nas imagens para ampliar. As fontes são: Cracked, 9GAG e do meu Reader.
Eu sempre acreditei que tudo de interessante que se aprende na faculdade cabe nas duas últimas folhas do caderno. Geralmente nessas páginas a arte do doodle se manifesta. Não conheço palavra em português que dê significado ao ato de desenhar de maneira livre e desordenada tudo que vier na sua cabeça para matar tempo e tédio.
Não sei desenhar, não consigo fazer duas linhas paralelas, nem formas geométricas. Chamar meus desenhos de abstratos seria apenas uma ofensa a todos os amantes dessa vertente artística. Em compensação, eu gostava de anotar algumas palavras marcantes que resumiam aquilo de interessante que eu estava aprendendo naquele momento.
Segue então tudo que aprendi no curso de Publicidade e Propaganda.
Mensagem subliminar não existe. Principalmente aquelas que fazem lavagem cerebral para as pessoas comprarem mais pipoca e refrigerante, piscando palavras de ordem no meio do filme, a muitos frames por segundo.
Se você discorda ou prefere acreditar em teorias de conspiração ou em propagandas malignas, sugiro o filme do qual retirei a memorável cena acima. They Live, um clássico do John Carpenter. O filme é completo: ação, lutas, frases de efeito, conspirações, mídia má e lição de moral edificante.
Em Capcom vs. SNK: Millennium Fight 2000, o famoso crossover entre os personagens das duas produtoras mais famosas de jogos de luta, ao entrar no menu de opções, o jogador pode ouvir no meio da música uma voz dizendo em português:
“Kaiser, uma grande cerveja, a cerveja dos momentos felizes…”
Isso mesmo, a marca brasileira de cerveja Kaiser. É uma mensagem subliminar para fazer as crianças começarem a beber cerveja? A Kaiser resolveu colocar suas propagandas em uma mídia diferente? Claro que não. Foi só uma gafe de um japonês desatento.
Na verdade o que aconteceu, foi que o compositor que fez as músicas do jogo, baixou do Napster várias faixas de áudio de vários países, para fazer sua mixagem, mas entre essas músicas havia uma faixa gravada da rádio Jovem Pan FM, onde o DJ fazia uma chamada da Kaiser durante a música, por ser japonês, o compositor achou que fazia parte da música, e como ele achou que esse áudio soava bem em sua composição, ele o utilizou várias vezes durante sua música.
Na semana passada o CQC mostrou uma entrevista na qual o Deputado Bolsonaro deu declarações que muitos passaram a semana todo condenando como homofóbicas e racistas. Não vou entrar no mérito dessa discussão.
O ponto que eu quero ressaltar é o fato de ele ser um deputado eleito que, de fato, representa uma boa parcela da população. Disso eu não tenho a menor dúvida. O assunto que deveria ter chocado todo mundo naquela semana foi outro: a partida de vôlei entre Futuro e Cruzeiro pela Superliga Masculina.
Michael, um dos jogadores da equipe de Araçatuba, que é assumidamente gay, foi alvo de comportamento claramente preconceituoso da torcida adversária. Em entrevista para o Globo Esporte ele deu a seguinte declaração (sublinhado por minha conta):
O que aconteceu exatamente em Contagem? Já tinha passado por uma situação semelhante antes?
- No jogo em Contagem teve uma manifestação da torcida gritando “bicha”, “gay”, todas essas coisas. Já tinha acontecido casos isolados de algumas pessoas gritarem pelo clima do jogo. Mas nem escuto, deixo passar porque é ignorância. Mas foi um coro, senhoras, crianças e mulheres gritando, já num clima preconceituoso mesmo. (…)
Não são as palavras em si que são preconceituosas, mas o contexto em que elas são ditas. Esse é o povo brasileiro. Bolsanaro, portanto, representa muito bem essa gente. Antes de ficarmos chocados com ele deveríamos ver o que aprendemos e ensinamos em casa, pois são através de piadinhas e comentários “sem maldade” que teriam bem mais graça se não fossem o retrato da nossa ignorância transmitindo a discriminação desde a infância, pois o que as crianças aprendem brincando é nada mais nada menos do que a estupidez se propagando (Pensador, Gabriel ).
O Deputado realmente não está sozinho e provavelmente muitos dos que o criticam (principalmente no Twitter) incidem na mesma falha de moral. Chegou pra mim o link do Tragédia da Empregada mais uma demonstração do que pensa o nosso povo quando acham que não tem ninguém olhando.