Memento

Comentários provocativos e observações irônicas sobre fatos do dia-a-dia.

Aulas de Religião

Sou a favor de aulas de religião em todas as escolas. Sou contra aulas que abrangem uma só doutrina, isso seria apenas proselitismo.

Nada produziria mais ateus do que uma aula ampla sobre as diferentes crenças existentes no mundo. Uma classe que se limitasse a falar das histórias e fatos dos principais credos do planeta, comparando suas ideias, valores e falando de seus conflitos.

A primeira coisa que ficaria evidente é que na maioria das vezes a escolha da denominação não passa de um acidente geográfico. Basicamente você tenderá há acreditar naquilo que se acredita em seu pais, independentemente dos reais méritos teológicos de seu culto.

Religiões: um acidente geográfico

Religiões: um acidente geográfico

A segunda constatação óbvia: Não é possível todas as religiões estarem corretas a respeito de seus dogmas, pelo menos não ao mesmo tempo.  Várias delas têm visões opostas ou contraditórias sobre o mesmo tema, portanto para que uma esteja certa é preciso que muitas outras estejam erradas.

 

Somando o argumento do acidente geográfico, com a incompatibilidade de crenças entre as religiões, a chance é de que nesse momento você provavelmente está torcendo pela causa errada.

No fim mesmo os religiosos são todos ateus, pelo menos em relação aos deuses dos outros. Em geral não é todo mundo que realmente acha que Apolo existe, ou Baal, ou Odin, ou o Monstro do Espaguete Voador.

Quanto aos conflitos, guerras e mortes em nome da fé, provavelmente seriam necessárias várias e várias aulas apenas para listá-las, pois se estendem do inicio da civilização até os dias de hoje. Provavelmente foram mortas mais gente em nome de deuses do que por qualquer outra razão.

Não é só através da guerra que as superstições continuam matando. Quando o representante máximo de uma determinada crença visita países africanos, onde milhares de pessoas são dizimadas pela AIDS todos os anos e se opõe ao uso da camisinha ele mata mais que uma bomba atômica.

Para ser justa a aula deveria também contemplar todas as coisas boas feitas pelas organizações. Tanto cultural, social e artisticamente os coletivos de fé contribuíram para avanços essenciais. Devemos, porém, deixar claro que nenhuma religião detém monopólio sobre o bem ou sobre o que é certo (apesar de várias fazerem tal afirmação).

Durante sua vida como debatedor, Christopher Hitchens sempre propôs o seguinte desafio para as autoridades religiosas: “Cite uma ação ou comportamento moral ou ético realizado por um crente que não pudesse ser realizado por um ateu”. Nunca obteve uma resposta.

Voltando as aulas de religião: Se deixada livre para explorar, as crianças, curiosas e sagazes, vão conseguirem concluir sozinho o que é melhor para elas. A única razão pelo qual uma criança se deixa converter é a pressão de seus pais e de sua comunidade. Não existe tal coisa como uma criança cristã ou criança muçulmana, assim como não existe uma criança republicana ou comunista. Elas são apenas filhas de pais cristãos ou filhas de pais comunistas.

No fim das contas, em frente de todas as evidencias e fatos e sem alguém obrigando a criança a tomar uma decisão, tenho certeza que ela vai crescer e perceber que assim como Papai Noel, deus não existe.

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2 Responses to Aulas de Religião

  1. Gabriel Albo says:

    Belo post. O mapa religioso é interessante, mas vale dizer que países como o Brasil, por exemplo, geralmente definido como Católico, tem uma diversidade bastante grande de grupos religiosos de grande representatividade convivendo em relativa harmonia – e, o que acho mais interessante, um contingente de “católicos não-praticantes”: uma definição, pra mim, análoga a dizer “sou um piloto de F1 não-praticante”. Para muitos, a religião é algo, de fato, herdado por acaso.

    Um efeito que acho interessante e que percebi por observação pessoal é de que grande parte dos ateus mais fervorosos que conheço tiveram uma orientação religiosa imposta, de alguma forma – catequese, por exemplo.

    Sou filosoficamente budista da tradição Zen, escola Sotō, e frequentemente me declaro “zen budista agnóstico” por não levar em conta dogmas “sobrenaturais” em minha prática – são bastante irrelevantes na minha tradição, na minha opinião. Acho a adoção de dogmas, sejam quais forem – incluindo o ateísmo, que é bem diferente do agnosticismo – um pouco perigoso e bastante limitante… especialmente porque eles frequentemente desfavorecem a tolerância a diversidade.

    Um abraço!

  2. Uau! Mais do que um post, uma aula!

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