Um domingo para ficar em casa

By , 22/08/2009 7:10 pm

Eu quero achar um motivo pra sair de casa no Domingo, mas não consigo. Na verdade eu até tenho dois bons motivos: ir à exposição do MARGS e no show da Balalaika. O que eu realmente queria era entender o motivo de ir votar nesse referendo idiota a respeito do Estaleiro Só.

Dei uma navegada serendipitosa pela Web e encontrei esse vídeo:

A sequencia de argumentos sem sentido me deixou pasmo, se isso fosse uma prova de retórica eles teriam todos sido reprovados.  Eis algumas das coisas ditas que me incomodaram bastante:

Diga não a privatização do Guaíba

O Estaleiro Só é privado a décadas, não se está discutindo isso e nenhum resultado na disputa vai mudar o fato de ele já pertencer ao empresário Saul Boff . André Machado colocou muito bem em seu Blog:

A área do Pontal do Estaleiro é e sempre foi uma área privada. Lá havia o Estaleiro Só e nunca foi usada pela população. (…)

Quanto à construção de espigões na orla, isto não será debatido no próximo domingo. Não está em discussão a altura dos prédios, mas se neles pode ou não haver moradias. Independentemente do resultado do referendo, espigões nascerão à volta do Pontal. Eles já estão autorizados na área do Barra Shopping Sul e junto ao Beira-Rio. Confesso que não consigo ver um motivo para sair de casa no domingo.

O projeto vai bloquear o pôr-do-sol do Guaíba

O melhor contra-argumento seria o construído por alexdesanti com ajuda do Paint Brush.

orla do guaiba

Além do mais, a votação gira em torno da possibilidade de construírem-se apartamentos residenciais ou não no local. Nada impede que sejam feitos apenas prédios comerciais e estes em forma de “espigões do mal” (como os ativistas do “Não” chamam os prédios altos do projeto). O resultado mais uma vez não vai interferir em nada. Além disso, ninguém nunca viu o pôr-do-sol daquele ponto, exceto os viciados da boca de crack que deve ter ali dentro no galpão abandonado.

O trânsito vai ficar uma merda

Os porto-alegrenses seguem a filosofia NIMBY, acrônimo para “Not in my Back Yard” ou em português “Não no meu quintal”. O melhor exemplo para ilustrar isso é a construção de prisões: todos são a favor de construir novas prisões, desde que não seja no seu bairro ou na sua cidade. É a mesma coisa com o progresso: todos apreciam novos investimentos para cidade, novos prédios comerciais e fábricas para gerar mais empregos, desde que fiquem bem longe das nossas casas, não bloqueie nossas vistas e não nos atrapalhe. Metade das pessoas que vão votar NÃO nesse domingo é desinformada, o resto é recalcado e egoísta.

Essa cidade nunca vai melhorar enquanto cada um pensar exclusivamente no seu conforto.

Contraponto

Por trás desse empreendimento tem muita falcatrua e uma série de histórias mal contadas. Para saber mais a respeito, sugiro o excelente Blog do Träsel. Em resumo, a novela pré-referendo é a seguinte:

O Estaleiro Só, empresa privada dona do terreno que ali construía barcos faliu, o terreno foi posto a venda em leilão por um preço baixo devido às limitações de construção que o plano diretor impunha para aquela área. O empresário Saul Boff foi lá, comprou barato e logo após acionou seus lobistas (e vereadores) na câmara de vereadores para alterar o plano diretor, permitindo que os prédios fossem construídos ali, valorizando a área absurdamente, num lance mágico de especulação imobiliária, deixando seus donos ricos.

Infelizmente é assim que se faz política em qualquer lugar do mundo, quem tem força faz pressão e mexe os pauzinhos.

Dito isso, quero sim que construam os espigões ali, pode não ser a melhor ideia do mundo, mas vai ser o segundo investimento decente na área da orla (o primeiro foi o museu Iberê Camargo). Espero que se abram as portas para outras iniciativas e que as pessoas gastem a mesma energia desses protestos para fazer algo útil nos outros tantos quilômetros abandonados que temos ao longo do Guaíba.

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One Response to “Um domingo para ficar em casa”

  1. Gabriel says:

    Exatamente o que eu penso a respeito. 90% dos votantes em “não” jamais param o carro no Estaleiro Só (e jamais pararam ou pararão) a menos que haja um congestionamento. A verdadeira discussão deveria ser a regulação da altura, não a construção em si. Eu sou (era?) a favor do projeto porque finalmente levaria a cidade um pouco mais para a zona sul, favoreceria a criação de uma região atrativa financeiramente e poderia até, numa projeção de um porto alegrense sonhador como eu, alavancar investimentos em toda a orla – quem sabe até na excelente região dos armazéns do cais, longe dali, mas quase tão abandonados quanto?

    Mas o pior de tudo é a mentira que o processo foi; tamanho gasto com uma votação que não valia nada, na realidade, simplesmente porque o prefeito soneca tem medo de tomar qualquer partido para não arranhar sua imagem nem com os empresários, nem com a população. Eu duvido que ele decida a cor da cueca de vai usar pela manhã, logo não posso esperar que ele tenha coragem de decidir sobre o Pontal.

    Mas fiquemos todos felizes. Temos direito de decidir coisas inúteis e proteger os ratos e baratas que apreciam o por-do-sol lá no Estaleiro.

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